Este assunto foi tema de mais uma das tantas discussões no Facebook. A jornalista Valéria Prochmann (foto) deu o desfecho histórico para o embate. Em poucas linhas, ela nos coloca diante de uma realidade que vem dos tempos do descobrimento do Brasil. Leia e se inteire:

Texto de Valéria Prochmann, jornalista.

O Brasil foi “descoberto” – na verdade, invadido – por Portugal em 1500. A população nativa (indígena) não se deixou escravizar e por isso foi dizimada, não sem antes ser taxada de “indolente”. Para pilhar as abundantes riquezas do Brasil – e você deve ter estudado os ciclos econômicos do pau brasil, da cana de açúcar e do ouro – Portugal realizou durante 300 ANOS o tráfico negreiro de escravos, capturados em sua terra natal – a África – e trazidos sob cabresto e tortura. Estima-se que tenham vindo nada menos do que 3 milhões e 600 mil escravos para o Brasil no período da escravatura. Eram submetidos a trabalhos forçados, açoitados, torturados, assassinados, vendidos e comprados como objetos em mercados no meio da rua. O Brasil foi o último país a abolir a escravatura em 1888 após longa luta abolicionista de pessoas humanistas como eu e o Osni Gomes. Porém os escravos libertos não tiveram qualquer assistência, qualquer apoio financeiro para se estabelecerem. Ficavam vagando e dormindo pelas ruas sem acesso à escola, à saúde pública, à moradia e principalmente ao capital financeiro. Após a proclamação da República em 1889, os militares no poder aprovaram a “lei da vadiagem” que permitia que as polícias capturassem os negros nas ruas e os prendessem em masmorras, mesmo que não tivessem cometido crime. Paralelamente foi incentivada a imigração de brancos, que ganharam terras do Estado cujo objetivo era o “embranquecimento da raça brasileira”. Os escravos que conseguiam fugir e os ex-escravos fundaram então os QUILOMBOS – comunidades rurais baseadas em economia de subsistência nas quais eles viviam de modo semelhante ao seu modo de vida original. Os membros dos quilombos são os quilombolas. Por esses motivos, a Constituição Federal de 1988 – ao reconhecer a dívida histórica do Estado brasileiro para com os afrodescendentes – protegeu juridicamente os quilombos, assegurando a essas comunidades o direito a habitarem essas terras e a viverem sem serem violadas. O mesmo preceito aplica-se às reservas indígenas. Portanto, as “ONGs” às quais a senhora se refere dedicam-se a assegurar esse direito a essas comunidades, caso contrário o poder econômico tomará essas terras para implantar pecuária, com sua volúpia por lucros e seu desrespeito pela história deste país, feita de sangue. Os poemas de Castro Alves – notadamente “Vozes D´África” e “Navio Negreiro” – narram o horror da escravatura. Nesta semana entrou em cartaz o documentário “A última abolição”.