OPINIÃO | MIRIAM LEITÃO |

Um dos novos chefes da educação brasileira avisou que vai vetar questões de “ideologia forte” nas provas e nas redações do Enem. Sei que muita gente anda em dúvida sobre o que seria isso. A ideia de cada pessoa ter quatro armas pode ser classificada nesse grupo? Não. Pelo que entendi até agora – tempos de novas nominações substantivas – ideologia é o que pensa o outro, aquele do qual o governo discorde. E implícito está que o pensamento dos que estão no poder não é ideologia.

Haverá um esforço para varrer das provas toda ideia estranha e deseducadora. Segundo esse específico novo chefe do setor de avaliações dos estudantes, haverá uma nova postura. Ele próprio vai olhar para ver se algum pensamento estrangeiro contaminou a prova. Será uma espécie de grande olho sobre o conteúdo do Exame Nacional do Ensino Médio. Ainda não assumiu, mas já se atribuiu esses deveres e poderes. Seu antecessor ficou apenas algumas horas no cargo. Perdeu-o não se soube muito bem o motivo.

Como ele impedirá que essa perigosa inimiga, a ideologia, se infiltre entre as questões? Segundo ele disse esse esforço pode ser levado às últimas instâncias. O próprio chefe supremo da Nação poderá fazer também a revisão. E isso porque, como ele explicou com lógica cristalina, o “presidente da República é o que mais se preocupa com o país”.

Tudo será para o bem da Nação, portanto. Fica só uma dúvida. Como implementar esse olhar fiscalizador onisciente sobre a prova? Há detalhes a remover, como o de que o conteúdo dos exames é preparado seguindo regras para evitar a quebra de sigilo, mas quem quer tão bem ao país, de certo não colocará em risco a segurança do teste. E ainda impedirá a presença da ideologia. Um dos novos integrantes do poder esclareceu de antemão um assunto que será banido: o feminismo. Avisos assim facilitam bastante a preparação das questões. Esse assunto nocivo deve ser proibido, explicou-se, não apenas nas provas, mas até nas salas de aula. Fico com a impressão de que o novo poderoso, que deu tal ordem, deve achar que é exótica a ideia de que mulheres e homens tenham direitos iguais. O feminismo seria então, na opinião desse jovem, um tema desorganizador das famílias, e que ameaça os homens de bem. Tarde para me dizer isso.

De todo modo, uma prova assim, sem subjetividades, sem espaços abertos aos estudantes, dava aos organizadores dos testes na época uma grande tranquilidade. Apesar de, como se sabe, não ter sido o suficiente para garantir a eles o controle que sonhavam ter. O risco é sempre insinuante.

Uma jovem que tirou nota mil na última prova, explicou como fez para chegar ao nível máximo que um estudante pode atingir. Eduarda, o nome dela, escrevia e depois saía à procura do ponto em que havia errado. Nesse esforço de achar o próprio erro ela foi se aprimorando até o dia da prova e a nota mil. Uma boa ideia para quem está começando a exercer seus poderes na República. Tem havido, como se vê, muita confusão, exonerações de recém nomeados, recuos e desmentidos. O método Eduarda poderia ajudar. Antes de anunciar uma decisão, rever tudo se perguntando: onde está o erro? Fica a dica.

Crônica da jornalista Miriam Leitão publicada originalmente no blog G1